HOMENAGEM A MARIO QUINTANA

QUANDO OS MEUS OLHOS

"E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram."
A Rua dos Cataventos
ENVELHECER

"Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas."
Sapato Florido
O BAÚ

"Como estranhas lembranças de outras vidas,
que outros viveram num estranho mundo,
quantas coisas perdidas e esquecidas
no teu baú de espantos... Bem no fundo.”
Esconderijos do Tempo
CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

"Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar..."
Antologia Poética

CARTA DESESPERADA

"... Sabes Beatriz, eu vou morrer..."
Apontamentos de História Sobrenatural


INSTRUMENTO

Impossível fazer um poema neste momento.
Não, minha filha, eu não sou a música sou o instrumento.
Sou, talvez, dessas máscaras ocas num arruinado monumento:
empresto palavras loucas à voz dispersa do vento...
Mario Quintana - Apontamentos de História Sobrenatural

A PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA, junto ao coreógrafo convidado João Butoh, começa sua nova produção, AS ÚNICAS COISAS ETERNAS SÃO AS NUVENS. 

Imensa inspiração para mergulhar no universo de uma das figuras mais instigantes da literatura nacional, nosso querido poeta Mario Quintana.

João Butoh traz até a Cia, além de toda sua experiência e vivência na arte do Butoh, uma antiga paixão pela obra de Quintana. Assim, tem início este processo que vai  revelando desde os primeiros passos as maravilhosas sutilezas da escrita do poeta, sua delicadeza, sua inocência, sua simplicidade e seus mistérios.

O poeta do cotidiano nos deixou há exatamente 20 anos, mas durante os ensaios sua doce voz chega até nós intensamente, criando aquela cumplicidade que todos ansiamos, acalentamos e que está cada vez mais oculta nestes tempos corridos.

Com esta emoção aquecendo o coração, vamos nos aprofundando em sua escrita e revivendo a cidade que Quintana tanto amava, ouvindo as músicas das quais ele gostava, imaginando os tempos saudosos de sua memória e principalmente mergulhando em seu universo com o desejo de nos tornarmos sua obra.

Na PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA os ventos da primavera dão vida às palavras do poeta, enquanto nós, bailarinos simplesmente, brincamos de anjos e voamos com elas!


AS ÚNICAS COISAS ETERNAS SÃO AS NUVENS - FOTOS

FOTOS SHANA GOMES










DEPOIMENTOS - PRÉ-ESTREIA - 27 OUT 2010


“Excelente. Surpreendente. Gostei muito. Muito interessante. Foi muito bem interpretado. Obrigada.”
Alexandra Silva, 44, Func. Públ. Estadual


“Achei belíssimo. A direção de arte estava linda e as interpretações extremamente expressivas. Existe, porém, problemas com a luz, mas fiquei muito tocado.”
Alexandre Moraes, 22, Estudante


“Achei muito bom o espetáculo, pois é bem sincero, bonito e romântico, o que achei mais bonito foram os anjos.”
Alexi Gardine, 11, Estudante


“Apesar do cenário lindo, das coreografias e de toda a concepção, achei que só faltou um pouco de diversificação na coreografia. Pareceu algumas vezes um pouco repetitivo, mas estava lindo. Parabéns!”
Ana Feijó, 30, Professora


“Delicado, expressivo, sensível, cheio de beleza.”
Ana Inés Algarte Latorre, 39, Serviço Público


“Lindo! Bela homenagem.”
Antonio Paulo V. Veja, 49, Pedagogo


“Instigante. Não conhecia o butho mas fiquei encantado. Também pela escolha dos poemas e das músicas.”
Augusto Cesar Franarin, 61, Engenheiro


“Maravilhoso porque mostra que as pessoas não são felizes se não podem ter liberdade, ouvir os cantos dos passarinhos, tomar um chá, ter cultura. As dançarinas são espetaculares!”
Beatriz F. Brasil, 63, Aposentada


“Feliz!! Foi o espetáculo mais lindo que vi este ano. Parabéns a todos. Belo! Beijos. Fiquei nas nuvens. Belo e cheiroso!”
Carmen Suzana Oliveira, 56, Instrumentadora cirúrgica


“Lindo!”
Cecília Davila, 76, Professora


“Um espetáculo maravilhoso, gestos e expressões lindos. Parabéns para todas.”
Claudette Todesco, 72, Aposentada


“Técnica muito interesante. Trabalho excelente, certamente fruto de muita técnica e esforço; bonito espetáculo.”
Drúbal, 59, Func. Públ. Estadual


“Maravilhoso, diferente de tudo que está em cartaz. O céu é muito lindo.”
Eunice Vega, 53, Professora Universitária


“Linda! Linda atmosfera. Cenário muito especial e ótimo trabalho corporal das bailarinas.”
Gabriela Maffazzoni Chultz, 17, Estudante (Teatro)


“Maravilhoso!”
Hans, 82, Regente Cultural


"As únicas coisas eternas são as nuvens revela a constante evolução da Porto Alegre Cia de Dança. É um espetáculo digno de renomados palcos e exigente público. Meus votos que a competência e o talento de vocês sejam reconhecidos e compensados. Agardeço a delicada lembrança. Abraço a todos."
Iara Chaves, advogada


“Como um sonho belo, singelo. Amei. Sonhei.”
Iara Madalena, 50, Autônoma


“Maravilhoso!”
Iasodara Braga, 25, Instrutora de Yoga


Adorei. Maravilhoso. Um carinho na alma!
Ione M. Baibich, Química


“Muito lindo!!!”
Irenice Traube, 59, Advogada


“Lindíssimo! Uma linda homenagem ao nosso Mario Quintana!”
Janine Viezzer Nascimento, 33, Eng. Agrônoma


“Bonito.”
João, 22, Arquiteto de Informação


“Obrigado por nos transportar para a singeleza do mundo de Mario Quintana. Parabéns!”
José Antônio Bexta Antunes, 46, Gestor Ambiental


“Muito bom mesmo de coração. A gente esquece de tudo, até de notícia ruim. Só coisa boa.”
José Elvino Rangel da Silva, 53, Aux. Adm.


“Muito bonito!”
Joseane, 24, Publicitária


“Lindo demais! Uma paz... Música linda, cores adoráveis, bailarinas expressivas e lindos poemas... Tudo! Demais. Que presente para essa noite!”
Júlia, 28, Serv. Público


“Excelente! Parabéns!”
L.S. Davila, 46, Professora


“Surpreendentemente emocionante.”
Laila M. de Mesquita, 77, Aposentada


“Leveza, beleza na música e na poesia. Traduzidas pelos/as anjos/jas de Quintana. Belo! Belo! E bravas meninas!”
Lia Ribeiro, Poeta


“O que dizer? Obrigado por fazer-me sonhar! Muito bom!”
Luiz Leite, 49, Ator


“Gostei, principalmente dos figurinos.”
Márcia Afonso, 32, Designer de Interiores


“Belíssimo!!!”
Marlene Santos, 34


“Disfrute mucho la coreografia, la fotografia y la música me parecieron muy buenas. Lo mejor: senti que el protagonista era Mario Quintana. Gracias! Les deseo lo mejor.”
Melisa Crocco, 35


“Achei ótimo, poemas bem escolhidos, tudo bem sincronizado, figurino ótimo. Coreografia e figurino transformam energicamente o espetáculo. Realmente lindo!”
Natália Vargas Xis, 18, Estudante


“Surpresa agradável, envolvente, terno e encantador. Cenário, música e poesia lindos. Bailarinos ótimos.”
Nina Furtado, 59, Médica


“Gostei bastante, principalmente do figurino.”
Rita Moreira, 25, Designer


“Achei incrível em todos os aspectos, uma fotografia maravilhosa.”
Rodrigo Bittencourt, 28, Professor de dança


“Excelente performance das meninas em poemas comoventes de Mário Quintana transpondo a poesia escrita em movimentos poéticos do corpo.”
Rodrigo Soares Zucchelli, 33, Estudante

“Muito bonito!”
Rogério Campos, 32, Estudante


“Maravilhoso, realmente espetacular. Beleza, aroma, talento e uma bela interpretação. Obrigada por tanta cultura em um só espetáculo. Fiquei nas nuvens.”
Rosane Quevedo, 43, Téc. Enfermagem


“De uma expressão e delicadeza incríveis. Ótima produção. Iluminação, figurino, cenário... Incrível!”
Shana Gomes, 25, Fotógrafa


“Lindo, as mãos são simplesmente o máximo.”
Suzi M. P. Rocha, 50, Médica


“Bem interessante. Algumas das músicas de excepcional qualidade. Excelente sincronia com a coreografia. Espetáculo muito sensível e original. Parabéns! Merece ser reapresentado em muitos lugares!”
Zilá Mesquita, 69, Professora Aposentada


“Lindo, bem produzido, um pouco lento.”
Anônimo, Professor


“Ruim para minha lógica transgressora. Bom para encontrar a criança, logo, tocante.”
Anônimo


“Delicado, simples e sensível!”
Anônimo


“(1) Começar no horário! (2) Necessidade de cuidado com adereços. Se a sombrinha é para estar quebrada, OK. (3) Trilha sonora e poemas maravilhosos;"
Anônimo


“Lindíssimo!”
Anônimo

AS ÚNICAS COISAS ETERNAS SÃO AS NUVENS + FOTOS

FOTOS FERNANDA CHEMALE







ENTREVISTA ESPECIAL COM ELENA QUINTANA


Elena Quintana e João Butoh - set/2010

Ser herdeira da obra de um grande escritor exige muitos cuidados. Ser herdeira do maior poeta do Rio Grande do Sul, então, deve ser uma responsabilidade ainda maior. A sobrinha de Mario Quintana, Elena Quintana, falou ao blog da PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA sobre suas principais ações para preservar e divulgar a obra do tio, além de nos dar sua opinião sobre o novo projeto da PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA, que une a obra do poeta com a dança japonesa Butoh. De quebra, Elena ainda nos disse que deve comparecer à pré-estreia da peça, As Únicas Coisas Eternas São as Nuvens, que acontece no dia 27 de outubro.
- O que tu fazes pra preservar a obra de Mario Quintana? Quais as tuas responsabilidades como herdeira?
A principal função do herdeiro, para mim, é não complicar na hora da obra ser publicada, o que acho que tenho conseguido fazer bem. Eu cuido das editoras, cuido para que a obra saia e principalmente para que vá para as livrarias. Muito se diz que os livreiros não compram poesia porque o público também não consome, mas isso não é verdade: se os livros estão nas estantes das lojas, as pessoas compram sim. E eu sou apenas uma intermediária entre a poesia dele e quem gosta dela. Eu atendo desde quem quer pedir para usar a obra dele em suas criações até as pessoas que querem saber mais sobre ele. É engraçado, mas às vezes tem gente que quer ter um pouco de contato com o Mario apenas falando com alguém da família, por isso as coisas que eu faço são muito agradáveis. E, no final das contas, eu não preciso fazer muita coisa para ele não ser esquecido, porque ele está muito longe de ser. Ele brincava às vezes e dizia "vamos ver quanto vai durar essa minha imortalidadezinha". E está aí, 16 anos até agora e ainda durando.
- Quando tu ouviste a respeito do projeto da Porto Alegre Cia de Dança, que alia a poesia de Mario Quintana à dança Butoh, o que tu achaste da ideia?
Eu adorei a ideia, achei simplesmente maravilhosa.
- Qual a tua opinião sobre revitalizar a obra de Mario Quintana unida a outra forma de arte, através da música?
Acho que a obra do Mario Quintana é extremamente rítmica e musical, por isso a ideia não é nenhuma loucura, é mais um desafio. Por si só, a poesia já tem ritmo, já tem sua própria musicalidade. E a proposta da Cia de Dança é justamente utilizar esse ponto, trabalhar a poesia com este foco.
- Tu já conhecias a dança Butoh?
Não, nunca tive nenhum tipo de contato. Eu já era familiarizada com o teatro oriental, mas não conhecia esta dança, até porque ela já é mais moderna, dos anos 60. Mas este é um outro ponto em que a obra de Quintana é pertinente no projeto: a poesia dele é extremamente oriental. Ele é tido como um dos mais orientais dos poetas brasileiros, dizem os especialistas da área. Quando se escolheu, por exemplo, a sua obra para ser traduzida para o mandarim, levou-se isso em grande consideração. Então, acho que ele cabe como uma luva na proposta. Em palavras mais simples, está tudo fechado num círculo para dar certo, porque tudo tem a ver.
- E essa relação da poesia com a dança. Como tu vês?
Bom, para mim, dançar poesia não é uma coisa tão espantosa. Como sou diretora de teatro, eu mesma já utilizei poemas dançados em algumas das minhas peças, sei o quanto é gostoso brincar com isso. E acho que essa relação melhora ainda mais porque a poesia do Mario não é apenas lírica, ela também pode ser um soco no estômago, também pode ser vermelha, forte, como são algumas emoções passadas pela dança e cultura orientais. E para quem não gosta de poesia, para quem diz "poeta rima com pateta", como algumas pessoas dizem, acho que ver a poesia por esse lado, da dança, também pode ajudá-las a verem tudo de outro jeito e quem sabe até mesmo começar a gostar de poesia, por que não?
- Tu vais na pré-estreia de As Únicas Coisas Eternas São as Nuvens?
Olha, tudo indica que estarei lá. Quero muito prestigiar.

ENTREVISTA ESPECIAL COM JOÃO BUTOH


João Butoh da Companhia Ogawa Butoh Center

por
Amanda Jansson

Com a morte, no último dia 1º de junho, do artista e dançarino Kazuo Ohno, o estilo que ele criou, o Butoh, também foi profundamente afetado. O coreógrafo João Butoh - da Companhia Ogawa Butoh Center, especializada no assunto, foi convidado recentemente para participar de eventos em homenagem a Kazuo. Ele falou ao blog da PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA e explica como o estilo continua sem seu criador e como a dança, como um todo, fica a partir de agora. Além disso, João fala do seu trabalho e de sua ligação com um dos grandes nomes da poesia gaúcha e brasileira: Mario Quintana.

Leia a entrevista completa:
Blog Poa Cia de Dança Como o falecimento de Kazuo Ohno, considerado o pai da dança Butoh, afeta o estilo? E o seu trabalho, de coreógrafo especializado nesta dança?

João Butoh Com a morte de Kazuo Ohno, o Butoh também morreu. De agora em diante só haverá releituras de Butoh. O trabalho desenvolvido por mim na Ogawa Butoh Center não será afetado em forma alguma porque temos uma técnica e metodologia próprias para o ensino deste estilo. Nossa responsabilidade, essa sim, será muito maior, porque agora está em nossas mãos a perpetuação deste estilo e a preparação de novas gerações para esta arte.

Blog Poa Cia de Dança Como será o trabalho apresentado nos dois festivais que homenagearão Ohno, na Thailândia e na Malásia? Quando eles acontecem?
João Eles serão no mês de agosto, um após o outro. A obra que criei diz respeito ao universo coreográfico de Kazuo Ohno. Chama-se "Homage to Mr.O". O título é uma referência às três obras cinematográficas do Mestre falecido recentemente, são elas: "The Portrait of Mr.O" (1969), "Mandala of Mr.O" (1971) e "Mr.O's Book of the Dead" (1973), dirigidos por Chiaki Nagano. O espetáculo traz réplicas de elementos cênicos, adereços e figurinos que foram usados por Ohno em suas obras, dos espetáculos “My Mother” (1981), “The Dead Sea” (1985), "Admiring La Argentina"(1977) e outras performances. A coreografia evoca o mesmo universo, mostra a admiração do aluno pelo seu mestre e o vazio que o mesmo deixou com a sua partida. Mas, acima de tudo, é uma grande declaração de amor.

Blog Poa Cia de Dança Qual o conceito que se buscará passar nestes eventos?
João Eu estou indo respondendo a um chamado, um convite que me foi ofertado: criar uma obra para homenagear o grande Mestre Kazuo Ohno para estes festivais de Butoh que acontecerão em agosto. Então, eu criei uma obra com essa proposta, que terá a sua estreia mundial nestes eventos.

Blog Poa Cia de Dança Qual a sensação de participar de eventos como estes que lembram uma dança marcada pela intensidade dos sentimentos?
João Há poucos grupos e cias desenvolvendo trabalhos com o Butoh no mundo. Em eventos como estes, que são específicos do estilo, tudo se torna uma grande festa. Isso porque eles reúnem muitos interessados e estudiosos do assunto no mundo todo, e é quando revemos os amigos que são companheiros de vida e irmãos de uma família muito unida. Nestes eventos sempre aproveitamos para trocar informações, trocar materiais. Nos reunimos para discussões diariamente. E, além dos espetáculos, vou ministrar workshops nos dois eventos.

Blog Poa Cia de Dança Pode-se estabelecer relações entre a dança Butoh e a cidade de Porto Alegre? Ou entre a mesma dança e um dos grandes nomes da Capital gaúcha, o poeta Mario Quintana?
João Eu tive o privilégio de ser o primeiro a transpor para os palcos a obra de Mario Quintana, com o poeta ainda em vida e com a autorização dele. A obra recebeu vários prêmios, além do Ministério da Cultura, da Universidade de São Paulo. Ela se mantém no repertório da minha companhia até hoje. Já fizemos temporada em Porto Alegre, na Casa de Cultura Mario Quintana, com bastante sucesso. E, claro, quero poder apresentá-la muitas outras vezes na cidade.

Blog Poa Cia de Dança Qual a sua relação com a cidade e com Mario Quintana?
João Já estive em Porto Alegre várias vezes, apresentado espetáculos e ministrando oficinas. Já fiz a estreia de uma obra na cidade, mostrei vários espetáculos, dentre eles o que fiz para homenagear Elis Regina. Mario Quintana e Elis Regina são dois pilares muito importantes e fortes da minha carreira e na minha vida. O poeta Mario Quintana, desde cedo, foi material para as minhas pesquisas, pois colaborou por demais para compor o universo onírico de meus espetáculos, a ponto de eu fazer um espetáculo só para ele e suas obras. Sem contar no vasto material que tenho guardado para muitas outras produções, porque pretendo montar outros espetáculos sobre o meu poeta querido. E, de certa forma, acabo por homenagear a cidade que eu gosto tanto e todos os grandes ícones que a transformaram para mim, em uma cidade muito mágica.

APENAS VISITANDO ESTE PLANETA - KAZUO OHNO


KAZUO OHNO 27 de outubro de 1906 - 01 de junho de 2010


A DANÇA BUTOH: SENTIMENTOS E DUALIDADES EM MOVIMENTO

Amanda Jansson
A dança Butoh nasceu no Japão, ainda nos anos 60. Logo que surgiu, era chamada de Ankoku Butoh, Dança das Trevas. Hoje simplesmente Butoh. O estilo foi criado por Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata como um movimento cultural para impedir a invasão da cultura ocidental no pós-guerra. Os bailarinos buscam no inconsciente comum a todo homem - oriental ou não - a beleza e a decrepitude a simplicidade e a complexidade, o cômico e o trágico. Essas dualidades, como o masculino e o feminino, a vida e a morte, são características desta dança, que retomou, antes de tudo a idéia quase esquecida de que o dançarino não dança para si, mas para reviver algo muito maior.
Tatsumi Hijikata criou e desenvolveu ações teatrais, performáticas, na década de 40, quando o Japão do pós-guerra sofria uma invasão cultural por parte do ocidente. Foi em bares, boates, cabarés e pelas ruas do submundo de Tóquio que Hijikata dava início ao que nos anos 60 era considerado uma forma marginal de expressão.
Já Kazuo Ohno, entrou na dança quando viu, em 1929, em Tóquio, a bailarina espanhola, nascida na Argentina, Antônia Mercé, o que lhe deu as primeiras impressões do renascimento da dança espanhola, e o impulsionou a estudar a moderna técnica de dança de Mary Wigman, coreógrafa expressionista alemã.
Segundo Ohno, "Butoh é uma das mais arrojadas formas de dança contemporânea, única do Japão. Expressa ao mesmo tempo tantas idéias diferentes que é impossível defini-la. Ela somente choca e surpreende". "A minha dança é a reza para a vida. O que me faz dançar é o sofrimento que eu carrego dentro do meu coração. A vida e a morte são inseparáveis, estão juntas dentro de mim enquanto eu danço, a vida é a reza, a fé e a dança é também a mesma coisa", define.
A mobilidade ou imobilidade das extremidades corporais, os movimentos dos braços, das pernas, do tronco, do pescoço, da cabeça, levam o performático a mergulhar na viagem corporal que conduz à poesia. Os dançarinos do Butoh quase não usam vestimentas, pois, para eles, a roupa veste o corpo e o corpo veste a alma. E é através da alma, das emoções, da vivência de cada um é que são criadas as sequências gestualísticas que formam o Butoh.
A maquiagem melancólica, o branco sobre todo o corpo, fazem com que os músculos sejam realçados, e suas formas expressivas são delineadas em movimentos essenciais, valorizando-se pela ausência de pêlos.
O Butoh recupera a vitalidade e a força do corpo, de um corpo domesticado pelas atividades cotidianas e esmagado pelas regras estabelecidas. O desenho de cada gesto é simbólico. Ele estimula ideias, associações e emoções tramando uma visibilidade: As intensidades, os afetos que atravessam os corpos, a música, os movimentos, são expressos através dos gestos. O corpo é o veículo de expressão dos elementos vitais: terra, água, fogo e ar.
Além de Kazuo Ohno, que já veio ao Brasil por três vezes (em 1986, 1992 e 1997), os grupos Sankai Juku, Natsu Nakajima, Anzu Furukawa, Ko Murobushi, Min Tanaka, Carlotta Ikeda e sua Cia., a Ariadone, também já se apresentaram em terras brasileiras.
O alemão Peter Sempel realizou o filme "Just visiting this Planet", rodado em dez países (inclusive no Brasil) onde acompanhou Kazuo Ohno. Na obra, ele combina o valor documental a uma sensível interpretação do universo deste senhor que, falecido aos 103 anos, ainda arrebatava plateias com suas coreografias que pretendiam revelar "as formas da alma".
Quando alguém ia a ele pedir pra ensinar a dançar, a resposta era sempre a mesma: “A dança não se ensina. Ela está dentro de cada um de nós. Primeiro tem que analisar sua vida, quando entender sua própria vivência, surgirá sua própria dança”.

* Bibliografia gentilmente cedida por João Butoh



DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


Mario Quintana - Espelho Mágico, 1951


Tão alegre é o caminho da PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA. Tantas estrelas aqui brilhando. Em um instante, quatro anos se passaram. Quatro anos desde a pré-estreia deste espetáculo que agora, finalmente, ganha vida. E é cheio de vida que surge - AS ÚNICAS COISAS ETERNAS SÃO AS NUVENS. Eterna como o instante, a poesia de Mario Quintana é sempre pulsante. E pulsa o coração do poeta, refletindo as nuvens e a calçada molhada, o dia-a-dia, a jovem enamorada. Pulsa com largo sorriso, sereno, anjo divino, se derrama suave como sereno, traz para o momento o amor do universo.

Estamos mais uma vez desfrutando da companhia desta estrela que é João Butoh. Para um observador desatento pode surgir a dúvida: como é possível uma produção tão intensa, tanta criação, do gesto, o movimento, a interação, quadros que se encaixam e ricos figurinos, muitos, cenários, adereços delicados; tudo funcionando em harmonia sem que sejam necessários séculos de trabalho? O amor por Mario Quintana torna tudo leve. Basta abrir as asas e revelar os detalhes da arquitetura, das vielas tão presentes para o poeta e descobrir os tesouros ocultos que a cidade apressada teima em ignorar

AS ÚNICAS COISAS ETERNAS SÃO AS NUVENS inicia sua jornada em Porto Alegre e se espalha pelo Rio Grande graças ao Pró-Cultura, fundo de apoio a cultura do estado do Rio Grande do Sul. Bem vinda a primavera, as flores, as borboletas, as nuvens, os cataventos, os anjos, amigos do poeta que trazem no peito o brilho da estrelas.

CURSO DE DANÇA BUTOH - PUC

A PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA em parceria com o OGAWA BUTOH CENTER, convida todos os interessados em conhecer e explorar a Dança Butoh, para participar do curso que será ministrado em setembro, na PUC RS. Uma iniciativa do Instituto de Cultura da PUC, que abre as portas da Universidade oferecendo a oportunidade imperdível de trabalhar com o precursor do Butoh na América Latina - João Butoh.

O curso oferece uma introdução ao pensamento e história da dança Butoh, através da exploração dos métodos básicos e das ferramentas corporais do método Aiar Butoh. Esta dança experimental é a relação do homem com a sua própria existência, sua natureza no corpo primitivo, seu lado irracional.

Os participantes terão também a oportunidade de participar das Visitas Poéticas, performances de rua que acompanham o projeto de montagem do espetáculo AS ÚNICAS COISAS ETERNAS SÃO AS NUVENS.

CURSO DE DANÇA BUTOH
ministrante: João Butoh
onde: PUC RS
quando: de 05 a 13 de setembro de 2014
horário: sextas a noite e sábados pela manhã
publico alvo: aberto a todos os interessados com ou sem experiência
inscrições: 51 3320 3727 ou clique aqui
mais informações: instituto.cultura@pucrs.br



22 OUTUBRO - 21h


EU ESTIVE AQUI - CLIP

EU ESTIVE AQUI NO TEATRO BOURBON

EU ESTIVE AQUI EM GRAVATAÍ E PASSO FUNDO




OBRA EQUILIBRADA E ADMIRÁVEL

Antônio Hohlfeldt

Programado para a última noite do recentemente encerrado Porto Alegre em Cena, o espetáculo que a Porto Alegre Cia. de Dança apresentou e reprisou na semana seguinte é um daqueles raros trabalhos a que a gente vai assistir com a expectativa de aplaudir uma boa performance, mas que acaba nos possibilitando muito mais do que isso, gratificando profundamente a quem foi assisti-lo. 

Esta é a segunda produção própria da Porto Alegre Cia. de Dança a que assisto. E não sei dizer exatamente o que é melhor: a inesperada e sensibilíssima coreografia do escocês Mark Sieczkarek, a beleza combinada do espaço de palco e o figurino, que sublinham e reforçam a própria coreografia, ou a absolutamente correta interpretação do conjunto de bailarinos. Seja o que for, e provavelmente seja tudo isso, mas, sobretudo, porque equilibradamente combinados entre si, estes elementos acabaram constituindo um espetáculo de exceção, sobretudo por sua emotividade. 

O trabalho anterior, de estreia do conjunto, já havia chamado a atenção, mas, de certo modo, e comparativamente a este novo espetáculo, constituía-se apenas num bom e correto espetáculo. 

É surpreendente imaginar que um europeu, especialmente um escocês, que tem uma experiência cultural absolutamente diversa da nossa, consiga nos interpretar tão corretamente como podemos ver nesta coreografia. O ritmo e a musicalidade que atravessam todo o espetáculo - de cerca de hora de duração -, cativam e prendem desde o primeiro minuto. A partir do momento em que se abre o pano de boca, já estamos envolvidos. E é importante observar que o coreógrafo também responde pelo cenário e pelo figurino tanto quanto pela escolha da trilha sonora do espetáculo, marcadamente sincopado ao gosto dos ritmos da música popular brasileira, a partir de composições do Cordel de Fogo Encantado, Caetano Veloso e Naná Vasconcelos, especialmente. Isso faz com que Eu estive aqui fique assinado à maneira brasileira sem, contudo, deixar de ser universal. E penso que é para isso que, ludicamente, Sieczkarek quer nos chamar atenção. O título da obra parece não ter nada a ver com a obra em si mesma, mas o fato é que a obra funcionaria objetivamente como uma espécie de atestado da sensibilidade e inteligência emocional do artista, como se ele dissesse: eu estive aqui, vi e ouvi a cultura de vocês e mostro o que dela compreendi através desta coreografia. 

O elenco da Porto Alegre Cia. de Dança igualmente esmerou-se na melhor interpretação e concretização possíveis da ideia do coreógrafo. O conjunto de nove bailarinos (dois homens e sete mulheres) ultrapassa qualquer caracterização diferenciadora de cada um dos indivíduos para funcionar como um conjunto harmônico e dinâmico, de onde o efeito de uma espécie de mecanismo muito bem azeitado, que funciona com naturalidade e objetividade, mas também com força emocional e unidade motivacional: é assim, transformando-se num único, a partir da ideia do coreógrafo até a iluminação de Maurício Moura, que o espetáculo acaba se transformando numa verdadeira obra de arte. 

Uma obra que emociona, uma obra que faz com que o público se deleite ao longo de espetáculo, não queira que ele acabe e, quando ele termina, fica quase que sem vontade de aplaudir, para não quebrar a magia ainda em efetividade. Foi assim que aconteceu: pela trilha sonora, a peça parece constituir-se num grande movimento circular, saindo e retornando à mesma composição musical que, por seu lado, provoca o mesmo conjunto de evoluções coreográficas. A peça, assim, fecha-se, não no sentido de obra difícil ou de autossuficiência, mas enquanto balé holisticamente bem constituído, de modo que não se pode mexer em qualquer movimento sem desconstruir a obra, que tem tal articulação entre seus elementos que qualquer um que sofra interferência, desmonta-a. 

Espero que o grupo possa apresentar-se mais vezes para os mais diversos públicos, porque a obra merece, o coreógrafo merece, o grupo merece e a arte merece.

EU ESTIVE AQUI POR RODRIGO KÃO ROCHA

Ó... deixa eu falar! Não entendo muito de dança, ok? Entendo o que gosto e o que não gosto, e sei avaliar o que está posto em cena... Afinal, a força do meu trabalho me ensinou algumas coisas certo? Então vamos lá!

Acabo de chegar do espetáculo "Eu estive aqui" da POA Cia. de Dança e cara... Poderia falar horas sobre o que vi e senti... Mas vou me deter aos fatos que mais me saltaram aos olhos:


Primeiro: Um espetáculo 100% monocromático e monocórdico. Explico, pois é simples. Todo ele concebido em preto e branco e com uma (ou várias) músicas que ficavam repetindo, repetindo, repetindo até trocar. Falando assim, é um espetáculo chato né? Não! Pelo contrário, um espetáculo colorido por coreografias limpas, bem executadas, emocionadas e emocionantes, que te dão uma vontade louca de sair repetindo os movimentos.


Segundo: Uma iluminação magnífica do Maurício Moura, que não é de hoje se sabe entender bastante de iluminação para dança, mas que a cenografia aprontou um desafio para ele no momento em que fechou a caixa cênica nas laterais. O pouco que sei de iluminação para dança e que aprendi com o próprio Maurício quando ele fez a luz de "Exercício sobre a cegueira", espetáculo que fiz com Camilo de Lélis, é que iluminação para dança deve priorizar as laterais para dar volume aos corpos. Bem, com a caixa cênica fechada dos lados, é impossível, mas mesmo assim, a luz estava linda. Toda em branco e resistência, mas que valorizou e muito os bailarinos e as coreografias.


Terceiro: Movimentos precisos, simples e limpos e de um bom gosto primoroso que dão a sensação de serem banais. Portagens simples e silenciosas, limpas e bem executadas, corpos vivos em cena e a sensação nítida de que daqui a pouco um deles ia sair voando pelo palco e aterrissar na plateia.

Sempre digo ter pavor do tal de "pós dramático" pois quando vou ao teatro quero ouvir histórias e não ter sensações, pois se é para ter sensações, vou a um espetáculo de dança... Bem, seguindo essa lógica criada por mim, tive várias sensações lindas assistindo "Eu estive aqui". Outra lógica minha, é que o espetáculo é bom quando eu sinto vontade de estar em cena. Bom, seguindo essa outra lógica criada por mim, é um ótimo espetáculo que eu recomendo 100%. Deve ser assistido, até mais de uma vez se possível.


Bravo POA Cia. de Dança! Lindo trabalho.


* Rodrigo Kão Rocha é ator e produtor teatral e tem o crédito da foto acima

EU ESTIVE AQUI - depoimentos


PRÉ-ESTREIA NO TEATRO RENASCENÇA

O espetáculo de dança mais legal que eu já vi! Quando saí da apresentação haviam pessoas cantando a música Zoinho do meu Amor e eu fiquei com ela na cabeça durante uma semana.
Pedro de Andrade - estudante


É muito bom usufruir dos espetáculos da Porto Alegre Cia de Dança. Chama a atenção o rigor, a disciplina, a criatividade com que levam seu trabalho.
Glênio Póvoas - pesquisador e professor de cinema

Pode-se afirmar, sem risco de exagero, que a segunda parte da trilogia "Partituras Brasileiras" da Porto Alegre Cia de Dança, é um trabalho primoroso. O que se vê é um espetáculo alegre, delicado, instigante. O todo dialoga harmoniosamente, proporcionando grande prazer ao espectador. Parabéns pela competência. Obrigada pelo prazer proporcionado.
Iara Chaves - advogada

Caprichado, chique, bem coreografado e muito bem dançado. Uma atmosfera leve com uma brasilidade vista por quem veio de muito longe. Este é o trabalho da Porto Alegre Cia de Dança. Me alegro de ter podido estar naquele momento compartilhando desta cena.
Bj parabéns!
Lisete Vargas - professora

Tocante, estético e delicado, esses são três adjetivos que poderiam substituir o nome do espetáculo EU ESTIVE QUI. Adorei a música e a expressão dos bailarinos, parabéns a todos pela dedicação a arte.

Ednardo Lima - professor

Assisti a pré-estreia ontem e gostei muito, parabéns! Muito interessante as trilhas escolhidas com todo o gestual da coreografia. Não entendo muito de dança, mas minha compreensão foi da colocação em cena da vida, seu início, a necessidade de outro, alegrias, tristezas, brincadeiras de crianças, o misticismo. A alternância de ritmo, emocionante, bacana. Será que minha percepção está correta? Grande abraço e sucesso para a CIA!
Rosangela Batistela - empresária

Estive hoje no EU ESTIVE AQUI. Fiquei encantada com o espetáculo. O cenário maravilhoso! Quando aquela caixa do tempo se abre, parece que um vento mágico passa pela platéia. Pássaros, borboletas, lembranças, histórias ganham a liberdade. Bailarinos, coreografias, figurinos, trilha, luz: tudo muito bonito! Parabéns! Sucesso para a companhia. Abraço para todos!
Teté Furtado - bailarina

ESTREIA EM WUPPERTAL - CRÍTICA

Fonte: Westdeutsche Zeitung - “Wuppertaler Kultur”, de 17/12/2010

Sieczkarek apresentou um espetáculo de dança leve e vaporoso
O prólogo é assumido pelo próprio coreógrafo. Mark Sieczkarek sobe ao palco trajando uma túnica preta e deixa, principalmente, seus braços e mãos dançarem uma história. Permite-se aos gestos entrar nos movimentos ondulantes. O solo é delicado e discreto.
Sieczkarek, que, por muitos anos foi integrante do Ensemble do Tanztheater de Wuppertal, trabalha de forma autônoma desde 1988. Com sua própria companhia e, em co-produção com a Porto Alegre Cia. de Dança, um grupo do Brasil, ele criou o espetáculo “Eu estive aqui” (Ich war hier). A peça teve sua estreia no espaço “Börse” junto a Wolkenburg.
Maracatu, um ritmo típico de Pernambuco, um estado no nordeste do Brasil, serve de ponto de partida e de fonte de inspiração para a coreografia. Ao som dessa música alegre e impulsiva, bem como de músicas do cantor brasileiro Caetano Veloso, três dançarinos e cinco dançarinas se movimentam em vestidos de cores claras, onde foram aplicados elementos florais. Os esboços para os figurinos e o cenário também são de autoria de Sieczkarek.
Alegremente, os dançarinos se movem em ondas, sugerem dribles e aclamações, cruzam o espaço gingando, se movimentam em fileiras, encenam pequenos momentos de encontro e de ternura e vão tecendo, bem espontaneamente, uma dança solo do cotidiano. Uma jovem dançarina, que se encaixa aqui ou ali na ação, traz uma nota de frescor à cena, bem como a brincadeira com os balões brancos.
De forma vaporosa e bonita, ao mesmo tempo que descontraída e concentrada, o grupo transpõe a atmosfera da música para o movimento. Nenhuma quebra de temperamento, nenhuma sensação de melancolia ou fadiga ensombrece a cena. Podemos sentir falta disso. Ou simplesmente nos alegrar com isso.
Tradução: Herta Elbern

MÜNSTER - CRÍTICA

A criação é benevolente com os seres humanos

fonte: Münstersche Zeitung de 13/12/2010 por Helmut JasnyDança: Mark Sieczkarek aquece o coração

MÜNSTER. Quando os dias ficam mais curtos e o tempo demonstra o quão desagradável pode ser, então acendemos as luzes no teatro, penduramos panos claros nas paredes e brincamos de verão, para que as pessoas possam novamente ter um pouco de alegria. Para isso, Mark Sieczkarek que, como escocês, também não cresceu em um ambiente ensolarado, se uniu com o grupo brasileiro Porto Alegre Cia de Dança. O resultado foi “Eu estive aqui (I was here)”, um espetáculo de dança marcado pela leveza dos países do sul que teve sua pré-estreia sexta-feira no Pumpenhaus.
Após um solo um tanto eurítmico do coreógrafo, oito dançarinos invadem o palco, formando pares e pequenos grupos, que entram em contato uns com os outros de forma delicada mas também muito expressiva. Ao som da música do “Cordel do Fogo Encantado” e outros ritmos latinoamericanos, tocam-se mutuamente nos ombros, afastando-se uns dos outros e tornando a se encontrar. Elevam os braços para o alto e os deixam cair, como se quisessem chamar a atenção do céu de que, ao lado de seu esplendor também ainda existe algo como uma terra.
Quando, logo a seguir, o canto se torna percussão, elementos africanos se misturam à dança que, com isso, adquire a forma de um ritual. Não são mais só indivíduos à procura de seu caminho nesta vida, mas sim uma comunidade que se encontra em perfeita harmonia. E, quando uma menina com um catavento de papel dourado adentra o palco e os dançarinos soltam balões no ar, se espalha a certeza de que a criação é benevolente com os seres humanos.
O mundo lá fora é cinza e sombrio, mas com Sieczkarek no palco tudo se torna claro e alegre. Este não é o tipo de transformação que conhecemos do Pumpenhaus, mas também não precisamos necessariamente ter algo contra tudo ser simplesmente simpático e bonito. Ainda mais quando, como aqui, foi feito muito bem.

tradução: Herta Elbern

EU ESTIVE AQUI - SINOPSE DO ESPETÁCULO


EU ESTIVE AQUI
A segunda coreografia de Mark Sieczkarek para a PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA é inspirada na observação da eterna e infrutífera tentativa humana de aprisionar o tempo. Uma reflexão sobre o contraste transitoriedade x eternidade.

EU ESTIVE AQUI questiona a criação de identidades que delimitam o "sem fronteiras" e mascaram o fato de pertencermos a um organismo vivo, o Universo. No espetáculo temos um aprofundamento da busca humana, independentemente de local e tempo. A vontade de perpetuar o momento, que quando representado já não existe mais. EU ESTIVE AQUI aponta para o eterno que há em cada instante e traz para o palco a intensidade do momento presente, tão presente na dança, efêmera por natureza.

São movimentos que remetem a uma língua oculta, talvez ancestral, repleta de significados desejosos por comunicar a impossibilidade de compreender. Uma incompreensão que muitas vezes gera o impulso por deixar uma marca, ainda que seja uma cicatriz no planeta, um grito estático - EU ESTIVE AQUI.

A obra revela um caminho para a transcendência, a entrega com totalidade celebrada pela dança coletiva. Intensa, leve e alegre.

EU ESTIVE AQUI EM NOVO HAMBURGO

Com a ajuda de muita gente, uma grande estrutura foi montada na Casa de Cultura e Cidadania de Novo Hamburgo, para receber o espetáculo EU ESTIVE AQUI. Na platéia a comunidade dos arredores, muitas famílias e um grande número de crianças. Foi um encontro maravilhoso, muitas daquelas pessoas nunca haviam visto uma Cia de Dança. Os pequenos, sentados na frente das cadeiras, durante o espetáculo ficavam tentando reproduzir os movimentos dos bailarinos, encantados com a nova linguagem. Os bailarinos por sua vez, resistiram a um calor intenso e realizaram um belíssimo espetáculo, foram cercados ao final dos aplausos, solicitados a posar para fotos, muitas pessoas querendo registrar aquele momento tão especial.
A equipe da Casa ficou surpresa porque mesmo com o forte calor e a proposta tão inovadora, o público ficou até o final do espetáculo e aplaudiu calorosamente. 
A PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA deixa aqui o registro de um espetáculo especial e aplaude iniciativas como estas da Casa de Cultura e Cidadania de Novo Hamburgo, que chegou na comunidade de Canudos há dois anos, disposta, entre outros tantos serviços,  a levar cultura a quem não tem acesso. Assim como nós, eles acreditam que é possível construir um trabalho consistente, com paciência, dedicação e amor. Obrigada, Lia, Arthur, Driele, Paulo e toda a equipe, vocês são a partir de agora nossos parceiros e que possamos juntos, levar dança a muitas comunidades e pessoas sedentas de arte em sua vida.
Equipe da Casa e elenco da Cia em Novo Hamburgo

EU ESTIVE AQUI EM CURITIBA

Sediado na praça Santos Andrade, o edifício do Teatro Guaíra abriga três auditórios, Bento Munhoz da Rocha Netto, Salvador de Ferrante e Glauco Flores de Sá Brito, e quatro corpos estáveis, a Orquestra Sinfônica do Paraná, o Balé Teatro Guaíra, o G2 Cia de Dança e a Escola da Dança.
Sua construção teve início no ano de 1952 e o projeto de 17 mil metros foi um dos marcos da arquitetura modernista no Paraná. O projeto arquitetônico do atual Teatro Guaíra é do engenheiro Rubens Meister (1922 – 2009), um dos precursores da arquitetura moderna no Paraná e um dos responsáveis pela implantação do curso de Arquitetura na UFPR, em 1962.
Em 1954 é inaugurado o primeiro de três auditórios que compõem o edifício: o Auditório Salvador de Ferrante, conhecido também como Guairinha. Neste espaço cultural tradicional da cidade, a PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA teve a honra de apresentar EU ESTIVE AQUI, na noite de 7 de novembro de 2013 e muita alegria em receber na platéia, integrantes do Balé Teatro Guaíra.
Foi com grande emoção também que a Cia visitou as dependências e demais salas de espetáculo do complexo, como o grande auditório Bento Munhoz da Rocha Netto, também conhecido como Guairão, inaugurado em dezembro de 1974, depois de ser reconstruído após um incêndio em abril de 1970, que o deixou substancialmente destruído.
O complexo cultural que, desde 1975, se chama Fundação Teatro Guaíra e a PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA têm assim suas histórias cruzadas e a Cia anseia por voltar a Curitiba para esta casa que acolhe o carinho e os aplausos do público.